Confira a entrevista de Lap Chan, sócio da BioAssets, empresa controladora da Ecompuá

12 \12\UTC setembro \12\UTC 2014 at 12:06 Deixe um comentário


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Comunidade da Região do Projeto Ecomapuá

A floresta vale mais “em pé” do que sem as árvores. É assim que pensa Lap Chan, sócio fundador da BioAssets, controladora da Ecompuá, empresa responsável por desenvolver um dos maiores projetos de redução de emissões por meio da conservação florestal, REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) e serviços ambientais, através da conservação da biodiversidade na Amazônia brasileira.

A Ecomapuá é detentora de uma área florestal de 98.362 hectares na Ilha do Marajó, no Pará, divididas em cinco grandes glebas ao longo do Rio Mapuá, uma propriedade de frente à cidade de Breves, no Pará, e outra na Ilha de Santana, no Amapá. Nessas áreas, a empresa trabalha também o desenvolvimento social e econômico das comunidades que vivem no local, que irá ser expandido com o projeto de créditos de carbono.

O objetivo é reinvestir a receita dos créditos de carbono no desenvolvimento de negócios sustentáveis, tais como açaí junto com as cooperativas comunitárias, educação ambiental, produção de mudas e reflorestamento de áreas degradadas. Isto ajudará a fazer com que os moradores vivam em harmonia com o meio ambiente. “Nossa ideia não é doar dinheiro. É levar conhecimento.”

Confira na entrevista abaixo mais um pouco mais sobre o trabalho da Ecompauá na região e o que podemos esperar para o futuro.

Como é o tabalho da BioAssets e da Ecomapuá?
Lap Chan – A BioAssets é a controladora da Ecomapuá. A Ecomapuá antigamente se chamava Santana Madeiras Ltda, e pertencia à Toyomenka Corporation, do Japão. A Toyomenka chegou no Brasil no final dos anos 60, junto com outras empresas japonesas que vieram explorar madeira no país. Ela fundou a empresa como uma S.A. (sociedade anônima) e chegou a construir uma grande indústria na Ilha de Santana, no Amapá. Daí veio o nome, Santana Madeiras Ltda, Samasa.

Só que depois de três anos de operação, vieram alguns técnicos do exterior e constataram que a unidade não estava bem. Existiam muitos obstáculos culturais e financeiros, e eles optaram por encerrar as atividades em 1978. Então, de 78 até 2000, eu acredito que eles arrendaram a área por alguns anos para algumas empresas que ainda continuavam a explorar.

Em 2000, eles colocaram a empresa à venda. Nós cruzamos com os diretores dessa multinacional, que nos ofereceram a companhia. Nessa época, adquirimos a empresa, não as terras. As terras já pertenciam à empresa. Então, adquirimos 100% das cotas da Santana Madeiras, já com a previsão de desenvolver um trabalho de preservação da floresta, acreditando que ela vale mais “em pé” do que sem as árvores. Após a aquisição alteramos o nome da empresa de Santana Madeiras Ltda para Ecomapuá Conservação Ltda. Alteramos a conotação de uma madeireira, para se tornar uma empresa de conservação e de desenvolvimento sustentável. Por isso, se chama Ecomapuá Conservação Ltda.

O que exatamente a Ecomapuá faz?
Lap Chan –
A Ecomapuá, além de ser controladora das áreas florestais, é o veículo que utilizamos para desenvolver os projetos de carbono, de serviços ambientais, de energia renovável e de manejo florestal de produtos madeireiros e não madeireiros. Uma das principais atividades no momento é implantar o primeiro REDD (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação) voluntário em áreas privadas nessa região.

As outras propostas que a temos são de trabalhar com produtos florestais não-madeireiros. Já desenvolvemos algumas parcerias convidando empresas que produzem oleaginosas, como as de cosméticos. Convidamos algumas para visitar a nossa área e eles sempre tiveram interesse. O que nós queremos é atrair essas empresas para implantar uma usina de oleaginosas local, e não só para comprar as sementes. Representantes de multinacionais cosméticas já foram lá. Mas o interesse é sempre em comprar as sementes diretamente. E nós ficamos receosos, porque o valor agregado na hora de vender as sementes é pequeno e não conseguimos garantir uma renda para as comunidades que seja justa, além do que a empresa não consegue operacionalizar um processo de venda de matéria-prima que compense. Uma das empresas que visitou queria pagar R$ 0,50 o quilo da semente. Poxa, um saco de 10 kg leva um dia inteiro para colher, e querem pagar R$ 5?

Então é uma empresa completamente diferente da Santana Madeiras?
Lap Chan –
Mudou completamente. Queremos gerar mais atividades com relação às terras. Nós não nos opomos em trabalhar com a madeira. Um dos planos é fazer um plano de manejo junto com a comunidade.

Recentemente, enviamos um engenheiro florestal para apresentar uma proposta para visitar uma das fazendas e iniciar um diálogo com a Associação Amorama (Associação de Moradores da Reserva Extrativista Mapuá), na qual pretendemos oferecer treinamento de capacitação para que eles consigam fazer um inventário e depois fazer a extração. Também podemos atrair o comprador para essa madeira. Isso nada mais é do que legalizar o que hoje acontece ilegalmente. Eu sei que sai muita madeira de lá de forma ilegal. Infelizmente, não dá para controlar.

Outra ideia é implantar algumas mini-indústrias sustentáveis de produção de oleaginosas, em Breves (PA). A gente sempre apostou nessas oleaginosas para cosméticos e também para biocombustíveis. Nossa ideia não é doar dinheiro. É levar conhecimento.

As terras são todas da empresa?
Lap Chan –
Nós temos áreas que vão ser desapropriadas, que foram declaradas dentro da reserva, que são as áreas da margem direita do rio. Mas até agora não recebemos nenhuma notificação e nenhuma indenização. Inclusive o nosso projeto beneficia a reserva, pois se eles desenvolverem o mesmo tipo de projeto que estamos fazendo na área da reserva, eles também podem gerar créditos de carbono. Nós já nos manifestamos publicamente que estamos à disposição para ajudar, apoiar, contribuir com os dados para que eles desenvolvam um projeto deles. Podemos apoiar tecnicamente e, se for o caso, até financeiramente.

Tempos atrás, críticas foram feitas ao trabalho realizado pela Ecomapuá na Ilha do Marajó. Essas críticas tinham sentido?
Lap Chan –
Houve boatos de que a gente pediu para o pessoal sair. Tudo sem fundamento nenhum. Nunca pedimos para ninguém sair da área. Até propusemos dar uma carta de comodato, de 100 anos ou mais, para garantir que eles não seriam solicitados a sair.

Depois que a Resex entrou, nós não quisemos ter conflito. Antes da criação da Resex, a gente já enfrentava algumas resistências por parte do sindicato rural, de pessoas que não viam o nosso propósito. Não sei se alguém estava por trás, como as madeireiras. Antes da nossa entrada, a gente descobriu que tinha muita madeireira operando lá, comprando madeira ilegal. Talvez, eles queriam manter essa situação. É uma resistência de mudar, inclusive de deixar a madeira saindo de forma ilegal, o que, na minha opinião, favorece poucas pessoas.

Mas, em relação ao nosso trabalho, acredito que sempre vai haver desconfiança.

Um funcionários do ICMBio chegou a confirmar os boatos. Como é a relação com o ICMBio?
Lap Chan –
Nunca tivemos problemas com eles, mas acho que ele não conhecia bem a atividade da empresa e disse aquelas coisas. Como se escuta muita coisa por terceiros, pode ser que nem tudo o que ele ouviu foi verdade.

Mas nossa relação com o ICMBio é normal. A gente tem um representante lá, o Aluísio Farias. Fizemos contatos frequentes com o ICMBio. A gente tentou ter contato com o pessoal de Brasília, fizemos algumas comunicações, reuniões pessoais minhas e também protocolamos algumas cartas-consultas para procurar desenvolver uma parceria com eles. Só que até hoje não houve uma manifestação de interesse. O que a gente sente é que há muita mudança na gestão e isso não gera um resultado positivo.

Nessa época, moradores da região começaram a referir-se ao senhor como ‘chinês’. Vamos aproveitar essa oportunidade para esclarecer isso. Conte-nos como veio parar no Brasil.
Lap Chan –
Eu nasci em Hong Kong, mas vivi o tempo todo no Brasil. Cidadão mesmo eu sou britânico, pois nasci em uma colônia britânica em Hong Kong. Vim para o Brasil com menos de um ano e hoje sou casado com uma brasileira e vivo em São Paulo.

Para finalizar, quais são as perspectivas da Ecomapuá para o futuro?
É aumentar o escopo de atuação, formalizar esse apoio mais forte à comunidade junto ao ICMBio e trazer mais alternativas, não só em relação à questão da madeira, mas aos produtos não-madeireiros, a possibilidade de desenvolver alguma atividade ligada ao açaí, que está ficando bem interessante para exportação, e também ao artesanato. Tem muita coisa que pode ser trabalhada lá.

Na parte de carbono, nós mapeamos a área e agora estamos no monitoramento. Teremos que contratar profissionais para ensinar a comunidade a preservar o meio ambiente, principalmente as áreas do entorno de onde moram. Isso não significa suspender as atividades deles, que são de plantio de mandioca, açaí e outros produtos para consumo. Mas sim evitar que eles desmatem novas áreas para extração de madeira ou para fins de criação ou plantação.

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Aluisio Farias, morador da região, conta como é a vida nos arredores de um dos projetos Ecomapuá Cerâmica Santorini, em parceria com a escola CIME, promove o projeto “Jardim de Amigos”

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