Projeto Ecomapuá Amazon REDD: entenda mais sobre o projeto e a realidade da região – Entrevista com Giovanni Salera Jr., analista ambiental do ICMBio

28 \28\UTC agosto \28\UTC 2014 at 18:37 Deixe um comentário


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Comunidade da Região do Projeto Ecomapuá

Na Ilha do Marajó (PA), existem muitas potencialidades, principalmente aquelas relacionadas ao uso sustentável da floresta, que não são aproveitadas. Dessa forma, os municípios da região registram alguns dos piores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) e PIBs (Produto Interno Bruto) do país.

O analista ambiental do Instituto Chico Mendes que atua na região, Giovanni Salera, conta, nesta entrevista, como é a vida na região e como a realização de um projeto de redução do desmatamento, que permite a geração de crédito de carbono como fonte de receita complementar para as populações que vivem por lá, está mudando a perspectiva dos moradores da Ilha do Marajó.

A intenção da Ecomapuá é reinvestir a renda obtida com os créditos de carbono em negócios sustentáveis para a região e proporcionar a melhoria na educação ambiental. Além disso, os créditos de carbono irão incentivar a produção de mudas, o reflorestamento de áreas degradadas e o aprimoramento dos métodos de monitoramento de desmatamento nas áreas da empresa.

 

Qual o panorama geral da região da Ilha do Marajó hoje, tanto nas questões econômicas, quanto sociais e ambientais?

Giovanni Salera Júnior – É possível dizer que atualmente a Ilha de Marajó é um dos locais com maiores desigualdades sociais do Brasil, especialmente nesses municípios da parte oeste do arquipélago (Gurupá, Melgaço, Anajás, Bagre, Breves, Curralinho), que engloba a parte de florestas alagadas e possui grande parcela de população rural.
Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicam baixíssimos indicadores sociais e econômicos, altos índices de analfabetismo, deficiência nos serviços de saúde, violência contra mulheres, crianças e velhos. São alguns dados tristes que caracterizam essa região.
Por outro lado, foram criados na última década algumas Reservas Extrativistas e dezenas de Projetos de Assentamentos Agroextrativistas (PAE), que, de certa forma, afetaram o ciclo econômico de exploração dessas florestas, reduzindo o desmatamento em muitas áreas.

Qual é o sentimento geral da população que vive nessa região?

Giovanni Salera Júnior – É possível dizer que a população marajoara vive praticamente abandonada pelo poder público, pois é certo que as ações realizadas nos últimos anos estão distantes de equilibrar o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dos municípios marajoaras com os de outras localidades.

Como o governo brasileiro atua na região?

Giovanni Salera Júnior – As políticas públicas são muito ausentes aqui. Há muita carência. O governo tem feito algumas ações como o Bolsa Família, Bolsa Verde, pagamento do Seguro Defeso, benefícios do INSS, entrega de Termos de Autorização de Uso Sustentável (Taus). São algumas ações relevantes que atendem diretamente as populações ribeirinhas do Marajó. Mas, infelizmente, para quem vem de outras regiões do país o choque é enorme, pois é visível a situação extremamente precária em que vivem os marajoaras.

Comunidade Bom Jesus

Comunidade da Região do Projeto Ecomapuá

E a iniciativa privada? Como é a atuação de empresários na região e o que eles estão fazendo para beneficiar a região?

Giovanni Salera Júnior – Em Breves, existem vários empresários que movimentam grande quantidade de recursos. Em geral, são proprietários de embarcações (navios e balsas), donos de madeireiras, postos de combustível, empresas de construção civil e comerciantes. Infelizmente, praticamente nenhum deles investe em projetos de desenvolvimento socioambiental.

No passado havia muita especulação sobre a atuação da empresa Ecomapuá na região. O que realmente aconteceu?
Giovanni Salera Júnior –
Aqui existe uma ideologia muito forte, pois a reserva é muito ligada ao movimento de esquerda. Quando eu cheguei aqui falavam em comunismo ainda. Ouvia-se muita coisa contra a iniciativa privada, sobre imperialismo americano, de que as pessoas vinham para cá para dominar a Amazônia. Esse pensamento mudou um pouco atualmente, mas essa carga ideológica ainda existe.

Como quando cheguei aqui sempre escutava que as pessoas de fora vinham para cá para se aproveitar, achei que a Ecomapuá era mais uma empresa imperialista norte-americana que queria roubar a Amazônia, naquela ideia de que Amazônia é americana. Tem aquela história que circula na internet, que a Amazônia aparece como território dos Estados Unidos no mapa.

O que acontece aqui é que muitas vezes as pessoas não querem as coisas por aqui simplesmente por questões ideológicas. Há muita dessa resistência.  O pessoal quer, está carente, vem a oportunidade, mas falta alguma coisinha para o negócio desenrolar.  Ao mesmo tempo em que a população tem uma admiração e uma vontade de se aproximar de quem é de fora, eles também sentem um receio muito forte.

O projeto desenvolvido pela Ecomapuá é benéfico para a região?

Giovanni Salera Júnior – Faz quatro anos que estou aqui e nesse período a região melhorou 300%. É o único projeto com uma proposta de longo prazo. Não tem nada parecido na região. Eu falo para o pessoal: Qual foi outra parceria que apareceu? Esse projeto está propondo algo inovador. Eu acho que a solução para a reserva seria uma parceria desse tipo. Esse projeto da Ecomapuá é diferente. O pessoal daqui está assimilando ainda. Nunca houve nada parecido, por isso há uma certa resistência. Então, o cara vai para uma reunião para entender o projeto da empresa e, no final, ele espera ganhar alguma coisa (um presente, tal como um conjunto de camisas e bola de futebol, ou uma ajuda financeira para comprar remédios, etc.), porque ele está acostumado com isso. Ele sempre vai para algum encontro e recebe um agrado. Mas a proposta da Ecomapuá é a capacitação. Eles estão entendendo isso aos poucos. Hoje, o cenário é favorável para esse projeto. Vai ser possível avançar muito mais em menos tempo, do que foi alcançado nos últimos 10 anos. Tem potencial para isso.

O que pôde ser observado de evolução desde que a empresa se instalou na região?
Giovanni Salera Júnior – Se a situação na região ainda hoje é de carência, como expliquei, imagina como era há 10 anos. Aqui já melhorou mais de 300%. Essa proposta é ousada demais para a realidade atual daqui. O projeto da Ecomapuá é o único na região. Foi a única proposta de um projeto de longo prazo e tem potencial de ser ainda melhor. O modelo atual da reserva, onde uma associação cuida de uma área extensa, não funciona bem, pois fica na mão de poucos. A área é do governo, mas está na mão de uma associação e é o líder da associação quem tem o poder de decidir se vai assinar um contrato ou não. E, às vezes, ele nem tem noção e acaba decidindo para pior. É um modelo que vai se esgotar em 20 ou 30 anos e essas áreas terão que passar para a iniciativa privada.

Quais são as potencialidades da região que são pouco ou mal exploradas?
Giovanni Salera Júnior –
 Existem muitas potencialidades, primordialmente aquelas relacionadas ao uso sustentável da floresta. Acredito que o manejo florestal madeireiro e não madeireiro e a cadeia produtiva da aquicultura estão entre as maiores potencialidades econômicas do arquipélago.

Qual é a ação mais urgente que precisa ser tomada na região?

Giovanni Salera Júnior – Existem tantas necessidades que é até difícil enumerá-las. As demandas sociais aqui são enormes, especialmente nas comunidades mais interioranas.

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