O que os economistas pensam sobre sustentabilidade

2 \02\UTC agosto \02\UTC 2013 at 11:16 Deixe um comentário


O que os Economistas Pensam sobre Sustentabilidade
Aquecimento global, mudanças climáticas, emissões de carbono, energias alternativas, novas tecnologias…A lista de termos que integram a pauta da sustentabilidade, além de extensa, representa um desafio novo para a humanidade. Um desafio que não deixa brecha para falhas e convida todos a refletir e agir. Todos, sem exceção.

“Diante dos cenários climáticos divulgados pela ciência, o desenvolvimento econômico não pode mais ignorar suas externalidades e efeitos colaterais”, afirma Ricardo Arnt no texto de apresentação do recém lançado “O que os economistas pensam sobre sustentabilidade”, da Editora 34. Nos últimos meses de 2009 e nos primeiros de 2010, o jornalista entrevistou e organizou as opiniões de 15 dos mais influentes economistas brasileiros sobre o tema.

Entre eles estão Antonio Delfim Netto, Gustavo Franco, André Lara Resende, Eduardo Gianetti, José Eli da Veiga e Sérgio Besserman Viana. No livro, os economistas – dos mais tradicionalistas aos mais engajados – discutem, sem subterfúgios, o que pensam sobre a crise ambiental e climática que ameaça o século XXI e gerações futuras, e o que é possível fazer para reverter esse quadro.

– Delfim Netto:
P: O relatório Limites do Crescimento, do Clube de Roma, provocou polêmica, em 1972, por questionar a ideologia do crescimento econômico, mas suas previsões revelaram-se erradas. Hoje, há de novo economistas propondo uma ”economia de não crescimento” para os países desenvolvidos. A sociedade pode abdicar da ideia de crescimento econômico?
R: “Convencer o sujeito de que continuar pobre é ótimo me parece uma tarefa difícil. Nos países que já atingiram certo nível de crescimento, não sei. Num país como o Brasil, que tem o nível de renda per capta que tem, é inimaginável. O que precisamos é chegar ao nível per capta da Noruega sem destruir o que sobrou”.

– André Lara Resende:
P: A agenda do presidente Obama pressupõe a retomada do crescimento econômico numa economia de baixa emissão de carbono. Isso significa uma nova fronteira tecnológica e um novo tipo de infraestrutura econômica, como transportes elétricos, por exemplo. Como o Brasil pode se inserir nesse novo paradigma?
R: “A gente está falando de grandes temas, mas há melhorias extraordinárias que não exigem tanta mudança. A coisa mais evidentemente disfuncional no mundo de hoje é o automóvel com motor a explosão. (…) Você não pode ter cidades do tamanho que temos baseadas no transporte individual de automóvel.”

– Edmar Bacha:
P: Construir uma economia de baixa emissão de carbono implica numa mudança de paradigma no pensamento econômico?
R: “Estamos lidando com um assunto cuja novidade para os economistas decorre do fato de que a gente sempre tomou, na análise econômica, a natureza como um bem livre, de oferta ilimitada, a preço zero. Portanto, não era objeto da indagação dos economistas. Os economistas se perguntam sobre como alocar recursos escassos com usos alternativos, e a natureza não aparentava ser um recurso escasso. (…) Então, estamos nos dando conta de que esse bem, a natureza, é escasso, e, dada essa visão de que há escassez, temos um problema econômico. O problema econômico deriva de que a natureza não tem dono”.

– Eduardo Giannetti:
P: A primeira opção econômica na Amazônia continua a ser converter floresta em capim. É possível criar uma economia da floresta em pé?
R: “Creio que é possível e acho que o grande problema brasileiro é enforcement. Nós temos leis até avançadas e exigentes de preservação, mas uma capacidade muito restrita de transformá-las em realidades e comportamentos. A capacidade do Estado brasileiro de se impor e de garantir o respeito ao marco legal, especialmente na região Norte, é ínfima. Começa pela questão da propriedade fundiária. Nós temos um caos de indefinição de direitos de propriedade na região amazônica que é altamente nocivo do ponto de vista da preservação.(…)”

– Luciano Coutinho:
P: Há economistas que dizem que as mudanças climáticas são a maior e a mais abrangente fala de mercado jamais vista.
R: “É verdade. Quando falamos de bens públicos, e de que não existe mercado para lidar com bens públicos pelo fato de eles não serem divisíveis e precificáveis, reconhecemos que o mercado não é capaz de cuidar das externalidades. O fato de que a poluição do ar, a emissão de carbono e os processos de poluição produziram uma capa de gases de efeito estufa sobre o planeta, que terá como consequência um aquecimento generalizado de pelo menos 2ºC — inescapável, irreversível e já instalado –, constitui, na verdade, um falha gravíssima de mercado. Ela poderá ter consequências dramáticas, nos colocando no limiar de um processo catastrófico, se não forem contidas.(…)”

– Gustavo Franco:
P: O que o senhor acha da ecoeficiência? A ideia do empresário Stephen Schmidheiny é produzir mais e melhor com menos, reduzindo o consumo de recursos e os impactos e aumentando o valor dos produtos e serviços.
R: “Acho muito bacana, porque, se os mercados fossem perfeitos, estaria tudo resolvido, mas não é o caso. Existe sempre o que a gente chama de arbitragem: oportunidades de fazer mais com a mesma coisa, comprar barato e vender caro. (…) Acho que seria um equívoco imaginar que todas as empresas do planeta produzem no seu absoluto píncaro tecnológico e não poderiam produzir mais ou desperdiçar menos. É claro que podem. (…)”

– José Roberto Mendonça de Barros:
P: Você acha que a inovação tecnológica poderá mudar o cenário climático pessimista, como mudou o prognóstico de catástrofe econômica antevista por Malthus no século XIX?
R: “Sim. Acho que não é ingenuidade, não, desde que de fato haja uma demanda por mudança forte. Os melhores exemplos que eu conheço são o açúcar e o álcool. A indústria de petróleo sempre detestou o álcool. Detestou! Porque tira o negócio deles. Só que agora estão entrando no negócio. Não é porque sejam bonzinhos, mas porque é inevitável. Já que produzem carbono, têm que fazer algo. É isso a transformação. E quando essa demanda se impõe os recursos aumentam.(…)”

– José Eli da Veiga:
P: Há empresas admiráveis e socialmente responsáveis, mas a maioria realiza programas de sustentabilidade pontuais e o marketing reivindica crédito planetário. Como você vê a onda de “maquiagem verde” ?
R: “A minha sensação é de que, quando a empresa começa a falar nesse assunto por oportunismo, não tem ideia do risco que está correndo, porque ela vai ser obrigada a levar isso a sério. Uma das razões é que você estimula certo comportamento do consumidor, e ele vai querer cobrar. Infelizmente, uma das características lamentáveis da sociedade brasileira é a fraqueza dos movimentos dos consumidores. (…)”

– Luiz Gonzaga Belluzo:
P:Mas o engenho humano conquistou a capacidade de alterar o planeta em uma fração de tempo histórico. Grandes mudanças não intencionais estão ocorrendo na atmosfera, nos solos, nas águas e nas relações entre os elementos. Como o senhor vê a busca pela sustentabilidade?
R: “Eu acredito muito naquela frase do Marx, de que a sociedade não se propõe problemas que não pode resolver. Ela está se propondo esse problema da sustentabilidade agora. (…) Esse é um problema que a humanidade tem de resolver, neste momento. A sociedade avançou de forma contraditória, construindo a possibilidade de se desenvolver sem agredir a natureza, mas ao mesmo tempo, tornando essa agressão cada vez mais dolorosa. (…)”

– Maílson da Nóbrega:
P: Há apreensão sobre a “capacidade de suporte do planeta”. A ONG Global Footprint Network, ligada à Universidade de British Columbia, no Canadá, anunciou que em 1987 o consumo global de recursos ultrapassou a capacidade de regeneração do planeta. Nosso excedente de consumo seria da ordem de 30% e, se continuarmos no ritmo atual, em 2050 precisaremos de dois planetas. O que o senhor acha?
R: “Acho que é uma visão no mínimo discutível, porque pressupõe que a tecnologia não possa resolver o problema , que não seja possível continuar o desenvolvimento com tecnologias que reduzam os danos ao meio ambiente ou que melhorem, gigantescamente, o uso dos recursos naturais.(…)”

– Aloizio Mercadante:
P: Na discussão sobre as hidrelétricas do rio Madeira, cuja corrente induz a muita sedimentação de detritos, havia quem reivindicasse uma avaliação da sedimentação na bacia do Amazonas inteira.
R: “Isso é fundamentalismo. Até entendo que o cidadão possa ter essa visão, mas o Estado não. O Estado tem de ter uma política e discernir sobre o custo dos impactos ambientais dos empreendimentos. Não há fonte de energia que não tenha algum impacto. Se você usar eólica para substituir uma hidrelétrica, imagine quantos aerogeradores e pás serão necessários. Como ficará o cenário? Ainda bem que temos uma matriz renovável variada. Está melhorando a percepção dos sistema e estamos avançando, mas temos de acelerar.”

– Sérgio Besserman Vianna:
P: A sustentabilidade é uma ideologia econômica ou uma necessidade?
R: “Não chega a ser uma ideologia econômica. É uma imposição da realidade. Temos tratado os serviços que a natureza nos presta como se fossem bens públicos: usamos à vontade, eternamente, infinitamente, sem custos. Sabemos, hoje, que têm custo. O custo é global, afeta bilhões no planeta e , por conta da mudança climática, não é uma agenda para muitas décadas, é a agenda de agora. Vamos ter de internalizar esses custos na contabilidade nacional, nas economias e nas empresas. Esses custos têm de ser precificados, têm de passar a ser cobrados. (…)”

– Persio Arida:
P: Um mercado de direitos negociáveis de emissão pode ajudar a encontrar o caminho para reduzir a poluição do sistema?
R: “Claro que sim. O problema é como distribuir o direito de emissão de tal sorte que os menos poluidores ou os que preservam as áreas verdes possam vender o direito para aqueles que precisam poluir mais do que deveriam. (…) Um preço universal me parece mais simples, embora, em princípio, não assegure com certeza, na partida, o controle desejado do processo de poluição. A menos que se consiga, desde o início, fixar o preço correto.”

– Luiz Carlos Bresser-Pereira:
P: Talvez a sociedade só se mova na beira da catástrofe − se tanto. As democracias de massa consideram os benefícios imediatos do crescimento mais importantes que ameaças futuras.
R: “Veja, o país mais rico do mundo são os Estados Unidos e, paradoxalmente, são os que mais resistem a um acordo. Pode-se até acusar os indianos, mas acho que a maior responsabilidade é dos norte-americanos, porque querem continuar se desenvolvendo. Eles construíram uma sociedade incrivelmente desigual e os padrões de vida do povão, da classe baixa americana, são muito ruins, ainda. Há muito que melhorar. (…)”

– Ricardo Abramovay:
P: É possível desenvolver conservando? O desenvolvimento sustentável não seria uma contradição em termos?
R: “Acho que “crescimento sustentável” é uma contradição bem mais nítida. Aí sim, como é possível fazer a economia crescer conservando? A economia ecológica tem uma resposta importante: você pode promover o crescimento não apoiado na maximização do produto, mas na maximização da qualidade. (…) Trata-se de preservar os serviços básicos oferecidos pelos ecossistemas e compatibilizá-los com o crescimento. A hipótese que cada vez mais economistas formulam é que a qualidade no crescimento econômico é compatível com a resiliência dos ecossistemas, e que as oportunidades daí decorrentes são impressionantes, como fronteira tecnológica. (…)”

(Fonte: Poral Exame- Meio Ambiente e Energia)

Além disso, confira também um bate-papo entre os economistas José Eli da Veiga e André Lara Resende sobre sustentabilidade, realizado pela Revista Página 22, Resgate Cultura e Tela PlanaProduções…

Entry filed under: Sustentabilidade. Tags: , , , , , , .

Atlas Brasil 2013 mostra redução de disparidades entre norte e sul nas últimas duas décadas Programa GHG Protocol 2013 – façamos o meio ambiente sobreviver

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Inscreva-se para receber notificações de novos artigos por email!

Junte-se a 47 outros seguidores

Nosso Facebook

Nosso Twitter


%d blogueiros gostam disto: